Conheça a dinâmica do Serviço de Internamento do VetOeiras
“Coordenar para cuidar” é a principal máxima do Dr. Luís Belo, Coordenador do Serviço de Internamento e da equipa médica do Hospital Veterinário VetOeiras, uma função que exige uma gestão rigorosa e uma estreita articulação entre médicos, enfermeiros, auxiliares e as diferentes áreas clínicas.
Sendo o VetOeiras um dos hospitais mais completos do país, aberto 24h com serviço de atendimento permanente, múltiplas especialidades e um elevado e diversificado número de procedimentos médicos e cirúrgicos que ocorrem diariamente, torna-se inevitável que o serviço de internamento assuma um papel preponderante no acompanhamento e recuperação dos animais.
Nesta entrevista, abordamos a organização e gestão diária das várias áreas de internamento do VetOeiras, a coordenação entre as equipas, como é gerida a passagens de casos, os cuidados prestados aos animais hospitalizados, a relação com os tutores e os desafios associados ao acompanhamento de casos de maior complexidade.
O Dr. Luís Belo mencionou ainda as melhorias obtidas na assistência e tratamento a animais em estado crítico, após o investimento recente em novos equipamentos para a Unidade de Cuidados Intensivos.
Quais as suas responsabilidades enquanto chefe de internamento de um hospital veterinário com urgências 24h, diversas especialidades, inúmeros procedimentos cirúrgicos e procedimentos que requerem que o animal seja anestesiado?
Eu acabo por ser o coordenador do internamento e da equipa médica, ao mesmo tempo que sou parte integrante da equipa de internamento, faço entre três a quatro turnos diurnos de internamento por semana. O médico de internamento do turno da manhã recebe os casos do médico da noite e faz cumprir o plano em curso, como tem também a responsabilidade de delinear um plano caso não exista, ajustar o plano em curso face a novos desenvolvimentos e estabelecer a interligação com as diversas áreas do hospital, solicitar exames e solicitar avaliações complementares face ao problema principal (oftalmologia, neurologia, ortopedia, etc.). O médico juntamente com a equipa de enfermagem avalia todos os animais, realiza exames físicos e exames complementares de diagnóstico, faz colheitas, faz exames e posteriormente estabelece a comunicação telefónica com todos os tutores entre as 13h e as16h para agendar visitas, altas e traçar planos de alta.
Como coordenador tenho também a função de receber informação crítica de todos os membros da equipa, bem como identificar e tentar eliminar pontos críticos, responder a necessidades da equipa e do bom funcionamento do internamento, requisitar materiais necessários e substituição em caso de avaria. Procuro também formar e orientar os membros mais novos, incluindo médicos, enfermeiros e auxiliares veterinários.
Como coordenador da equipa médica a função prende-se com coordenação de horários, ausências, faltas e férias sendo o elo de ligação com a Local Admin Manager e o Diretor Clínico, reportando-lhe as lacunas de horários e tentativa de resolução das mesmas.
Como se divide o serviço de internamento?
O serviço de internamento encontra-se dividido entre internamento de cães, internamento de gatos, unidade de infetocontagiosas, unidade de cuidados intensivos e temos ainda uma unidade de recobro para animais que vêm para procedimentos mais simples em regime de ambulatório, localizado junto à sala de TAC.
Existe alguma equipa dedicada ao serviço de internamento?
Sim, há uma equipa fixa de internamento composta por um número pequeno de médicos e durante algumas tardes, contamos com a presença de alguns médicos mais recentes no VetOeiras e alguns médicos estagiários.
A somar a isto, contamos também com o apoio da equipa mais sénior nas rondas médicas, principalmente da Dr.ª Tânia Dias, médica sénior do serviço de medicina interna, que está presente em todas as passagens de casos da manhã para rever os casos com todos os médicos. Além disso, sempre que possível a equipa de imagiologia também assiste à passagem de casos para correlacionar os achados da ecografia com a medicina interna.
Como gere a equipa ao nível de turnos, funções de cada elemento e passagem de casos?
A passagem de casos acontece em três momentos: primeiro das 9h30 às 10h00 entre o médico da noite e o médico responsável pelo internamento diurno, onde estão presentes o/os enfermeiro/os que estarão no internamento desse turno, sendo esta aberta a todos os médicos que estejam disponíveis para uma discussão mais ampla.
No internamento habitualmente só há um médico por turno, portanto as funções médicas recaem todas nesse médico. Neste sentido, face ao atual crescimento da unidade e um maior número de internados, tem havido a necessidade crescente de mais apoio médico, pelo que o médico de internamento da tarde, apesar de assumir a responsabilidade do turno às 16h30, entra às 14h para apoio ao internamento na redação de altas e terminar tarefas que o médico responsável pelo turno da manhã ainda não tenha terminado.
Posteriormente há uma passagem de casos entre as 16h30 e as 17h onde se encontra a equipa que sai e a que entra (médicos e enfermeiros), bem como todos os que queiram assistir e contribuir para a discussão de casos.
A terceira passagem é feita entre as 20h e as 20h30 (quando possível) entre o médico do turno da tarde e o médico que fará a noite/urgência. Esta é menos estanque, se houver urgências à espera pode atrasar, sendo que o médico da tarde sai às 22h, portanto a passagem deve ser antes dessa hora.
Os enfermeiros fazem os exames físicos, colheitas, cuidam do bem-estar dos animais e coordenam os auxiliares em alimentação, passeios e higienização de jaulas, identificam pontos críticos, faltas de material e são responsáveis por preparar e administrar medicações.
Os auxiliares são responsáveis por passeios, alimentações, higienização das jaulas e dos animais, banhos quando necessário e contenção quando é preciso.
Que critérios básicos ao nível monitorização, higiene, alimentação e check-ups regulares tentam cumprir?
A alimentação está incluída na hospitalização sendo que de modo geral, na ausência de restrições, todos são alimentados com dieta gastrintestinal ração seca e húmida de acordo com o cálculo das NEM (necessidades energéticas mínimas de cada um), estando devidamente identificada na prancheta de cada animal.
Quem alimenta os animais é a equipa auxiliar e na respetiva prancheta regista quanto ofereceu e em que horário, e posteriormente identifica se comeram tudo, caso não comam, pesa o que sobrou e regista a quantidade ingerida.
Em relação à monitorização, são efetuadas pelo menos três monitorizações diárias com temperatura, frequência cardíaca e respiratória, auscultação, avaliação de mucosas e medição de pressões arteriais. Quando se identifica alguma alteração num destes pontos críticos, a mesma é investigada. Verifica-se também a patência de cateter pelo menos duas vezes ao dia, ou mais caso necessário.
A alimentação é administrada três vezes ao dia e os passeios são realizados três ou quatro vezes por dia.
Como gerem as diferentes necessidades e diversidades de quadros clínicos dos animais que têm internados?
Temos uma equipa multidisciplinar que está apta a agir face aos diferentes quadros clínicos e temos uma equipa de enfermagem fixa de internamento que também está muito atenta a fatores decisivos na evolução clínica dos doentes. O facto de a equipa médica e de enfermagem ser bastante fixa, acaba por conhecer melhor os internados e identificar mudanças de dia para dia.
Como lidam com as preocupações dos tutores?
Há contacto telefónico diário e visita diária acompanhada pelo serviço de enfermagem em consultório individual. Nos casos críticos ou mais sensíveis existe contacto presencial entre médico e tutor.
Relativamente à aquisição de novo equipamento, o que adquiriram em concreto?
Adquirimos uma unidade móvel de UCI com quatro jaulas, que se podem transformar em duas maiores ao retirar a barreira do meio. As mesmas permitem uma melhor oxigenação dos doentes críticos e dispneicos, controlo de atmosfera com controlo de temperatura, humidade, Oxigénio e CO2.
Que funcionalidades novas oferecem as recém-adquiridas jaulas de UCI que as antigas não ofereciam?
O equipamento oferece um ambiente clínico avançado e seguro para animais, combinando tecnologia de desinfeção e desodorização em tempo real, circulação de ar inteligente para evitar contaminação cruzada e um sistema de climatização silencioso e eficiente. Além disso, proporciona um ambiente enriquecido com oxigénio, capaz de atingir concentrações superiores a 40%, integra terapia de iões para apoiar a recuperação e melhorar os níveis de SPO2, dispõe de um sistema de iluminação e apresenta uma interface intuitiva com ecrã tátil, parâmetros predefinidos e cenários clínicos de fácil identificação, adaptando-se a animais de diferentes portes e otimizando o espaço na clínica.
De que forma este investimento em equipamentos novos facilitará o vosso dia-a-dia e vos ajudará a melhorar a qualidade do serviço?
Este equipamento permite um melhor controlo e estabilização de doentes críticos, dispneicos, cardíacos em descompensação por edema cardiogénico, por exemplo, doentes com pneumonias graves com fraca oxigenação, doentes hipotérmicos, politraumatizados, entre outros críticos ou não, mas que ainda assim precisam de uma maior estabilização.
Enquanto médico, dedica-se igualmente a outras áreas da medicina veterinária?
Sim, como médico dedico-me ainda à endoscopia e associo-me muito à medicina interna, pois trata-se de uma mais-valia para reduzir o acesso cirúrgico em biópsias gástricas e intestinais, bem como extração de corpos estranhos.
Faço ainda parte da equipa de tomografia, nomeadamente aquisição de imagem e envio para leitura por médico veterinário diplomado.
Tenho alguma formação em ecografia abdominal e ecocardiografia, sendo que utilizo essa formação principalmente em POCUS e na ausência de membros da equipa mais especializados.